" .. Tem olhos hipnóticos, quase diabólicos. E a gente sente que ela não espera mais nada de nada nem de ninguém, que está absolutamente sozinha e numa altura tal que ninguém jamais conseguiria alcançá-la. Muita gente deve achá-la antipaticíssima, mas eu achei linda, profunda, estranha, perigosa. É impossível sentir-se à vontade perto dela, não porque sua presença seja desagradável, mas porque a gente pressente que ela está sempre sabendo exatamente o que se passa ao seu redor. Talvez eu esteja fantasiando, sei lá. Mas a impressão foi fortíssima, nunca ninguém tinha me perturbado tanto (…) ” [Caio Fernando Abreu]



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Tô vendo tudooo.

Sempre fui de analisar. Situações. Pessoas. Livros. Gestos. Atitudes. Lugares... Tudo. Tudo mesmo. Na primeira série, do primeiro grau, eu era super CDF (haha.. verdade), mas não usava óculos e preferia sentar na última cadeira da classe. Por quê? Para que pudesse observar todos meus colegas. A visão era ótima. Por vezes me peguei não fazendo as atividades em classe para ficar analisando, silenciosamente, cada um deles. Como seguravam a caneta. De que cor eram seus lápis. Qual o "bichinho" estampado em suas meias. A expresão pensativa de quando a atividade parecia difícil. Eu viajava milhões de kilômetros em minutos, naquela última cadeira da classe.

Sou do tempo em que a professora chamava um aluno para ler - em voz alta - cada frase, ou parágrafo, de um texto. Eu detestava isso. Por quê? Porque se eu lesse não poderia ver a expressão do outro ao ler e ao me ver lendo. Mas eu não era uma viajante eterna.. ao mesmo tempo em que fazia minha "análise" sabia, exatamente, o que e como as coisas aconteciam ao meu redor.

Observei tanto minha professora da primeira série que até hoje saberia identificá-la. Seu nome é Cristina, ou Tia Cristina. Ela tinha os cabelos curtos estilo channel (é assim que se escreve?) com alguns fios brancos. Estatura baixa. Pele clara com algumas rugas próximas aos olhos - mas tenho certeza que apenas eu as tinha notado. Tinha dedos finos e médios. Nunca pintava as unhas e sempre estavam curtas. Seus olhos eram verdes. Sua boca pequena. Era brava, muito. Em dia de ditado tinha um menino que suava frio de tanto medo.

Muitas séries se passaram e continuo assim. Analista de quase tudo. Talvez seja por isso que em algumas situações fico calada, quieta. Perco as palavras para que meus olhos sejam protagonistas. Passados alguns minutos sou capaz de formular uma teoria - na maioria da vezes correta - sobre o objeto de análise. Não sei explicar ao certo o que acontece, mas acontece.

Já passei noites em claro lembrando de fatos do meu dia e fazendo - ou tentando fazer - teorias. Me questionando o porquê de tudo e de como as coisas acontecem. Minha mente vai até onde quer - ou deveria - parar. E o bom, ou ruim, é que ela nunca pára.

 

Mas... quer saber? Adoooooroooooo.



- Postado por: Diii às 11h07
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