Ela. Ela gostaria de se descrever em poucas linhas. Mas nunca conseguira. Pois quando começa escrever idéias, pessoas e sons invadem os espaços de seu teclado e não a deixam ser sucinta. De maneira alguma. E isso a irrita. De repente ela pára e espera as idéias se organizarem pra finalmente virarem frases. Soltas. Incompletas. Imperfeitas. Talvez também desnecessárias. Mas ela continua escrevendo. Como se tudo estivesse ali nas letras semi-apagadas do teclado preto. Seu esmalte vermelho está descascado em uma, apenas uma, de suas unhas e isso a irrita a ponto de pintar, exatamente, no lugar que está desproporcional. E isso também a irrita. Odeia “retoques”. Nunca ficam melhores que os originais. (Talvez por isso é que se tem o prefixo RE na frente) Então começa um formigamento estranho na parte superior esquerda de suas costas. Ela sabe que é por causa da mania irreversível de sentar feito menino na frente do computador. Talvez tome um Dorflex pra ver se passa. Mas ele tem preguiça de buscar um copo com água. E acha o tamanho do comprimido grande demais também. Acho que ela não quer tomar mesmo. Talvez queira. Sua expressão agora não é das melhores e isso me assusta. Na verdade, ela me assusta. Seus olhos verdes possuem um mistério enigmático. Indecifrável. Ao mesmo tempo que transmitem segurança, matam. Seus cabelos estão bagunçados e ela não faz o mínimo esforço para alinhá-los. Olha para o teclado como se estivesse escrevendo seu testamento. É agoniante como ela digita. Não usa todos os dedos. Acho que nem sabe. Só sabe digitar assim errado mesmo. Tem uma bolsa roxa jogada embaixo de sua arara de roupas. É de sua irmã. Ela odeia coisas jogadas, principalmente, no seu espaço. Mas logo ignora e volta a escrever. Seu olhar parece distante e a feição é de alguém que espera algo. O lápis que passou, milagrosamente, em seus olhos pela manhã já estão borrados. Mas ela passará demaquilante logo. Sei que vai. Jamais dorme com maquiagem. Alguém a chama para jantar, mas ela não está com fome. Não quer jantar. Odeia a palavra jantar. Acabou de voltar à postura de menino na cadeira e suas costas voltam a formigar. Ela faz uma expresssão de dor. Suas olheiras ficam mais visíveis com a luz do monitor refletida. Coloca a mão na boca e tira em seguida. Acho que ela foi jantar. Mesmo sem querer, ela foi jantar. Talvez volte. Talvez não. - Postado por: Diii às 20h00 [ ] [ envie esta mensagem ]
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