Sobre Diários e Agendas..
Tinha sete anos quando emburrei no meu quarto porque queria um diário. Sim, um Diário com d maiúsculo. Depois da minha cena-papai-me-dá-se-não-não-desamarro-o-burro, ele mandou eu escolher na melhor papelaria da cidade (hoje ela nem existe mais - Papelaria Pérola). E lá fui eu. Quando vi todos aqueles caderninhos com a escrita Diário na capa.. ahhhhh.. foi mágico. Não sei até hoje descrever o momento. Então, coloquei meus olhos - infantis - em um especial que tinha uma menininha com uma flor amarela na mão. Tinha cadeado. As folhas tinham 3 cores e cheiravam pudim de baunilha. Fiquei odorificamente (existe??) e visualmente hipnotizada.
Ao chegar em casa, antes de abrí-lo, olhei. Olhei. Olhei. Deitei, coloquei no travesseiro e continuei olhando. Não pensava em nada. Só contemplava. Não sei quanto tempo fiquei assim, mas foi tempo suficiente para anoitecer. Jantei e depois peguei uma caneta de 10 cores e outra dúvida surgira: - Com que cor escreverei na primeira página do meu primeiro diário? (Na época, essa dúvida era muito importante para uma menina que começaria uma amizade com o desconhecido - um diário cheiroso com cadeado). E então minha melhor e mais esperada hora do dia era quando abria aquele cadeado e começava escrever. Lembrava de tudo - ou quase - que tinha feito e escrevia. Sentia-me importante. A-menina-que-tinha-e-escrevia-no-seu-diário-começou-a-notar-sua-importância.
Nos anos seguintes, eu não queria mais diário. Queria Agenda(s). A palavra Diário já me causava certo estranhamento. Acho que era algo bem próximo disso: estranhamento. Então continuei d-escrevendo meus dias e meus sentimentos em agendas. As primeiras, tinham letras enormes desproporcionais (condizente com a idade da moça aqui!) e figurinhas de chicletes. Papéis de bala - com recadinhos. Guardanapo. Lembranças de amigas. Meu primeiro "amor". Acho que também tinha algo relatado do primeiro beijo. Na minha aborrecência, minhas agendas, se tornaram sentimentalóides a ponto de - hoje - achar que poderia ter inaugurado o Movimento Romântico brasileiro, caso eu estivesse presente nesta época de Suspiros Poéticos e Saudades, do Sr. Gonçalves de Magalhães. E com o aumento das responsabilidades, minhas agendas começaram a ter mais páginas em branco que enfeitadas com palavras (des)necessárias. Alguns meses passaram, literalmente, em branco. Minha "última" agenda é uma permanente. Não tem ano, nem dia definido. Escrevo quando quero. Sem compromisso de dia. Deu vontade, vou lá e escrevo. Escrevo por hobby. Por vontade de passar pro papel ou pro Blog o que ocupa espaço aqui dentro. Ou o que precisaria de espaço, também.
Na verdade, depois que construí meu blog, minha escrita anda mais cyber. Mais prático usar a tecla DEL que riscar em cima da palavra fora da minha ordem particular. Porém-entretanto-mas, vira-e-mexe preciso do contato com o papel. Então pego minha permanente e leio. Se dá vontade, escrevo. Tááááá. Depois de todo esse blá-blá-blá que você se dignou a ler (thank's!!!!), abro o jogo: não consigo mais viver sem escrever. Preciso das palavras ali num lugar visível (pelo menos pra mim, há!). Não é mania. Nem passatempo. Nem vontade de divulgar sentimentos que serão sempre meus. É uma necessidade que deixa minha vida mais completa. Mais entendível, talvez. E, acreditem, nem sempre consigo transmitir e expressar a explosão de sentimentos que borbulham, diariamente. Quando coloco minha cabeça no travesseiro, milhões de textos começam por si só a serem escritos no meu blog-mental-autônomo. Aí penso: preciso escrever isso quando acordar. Mas durmo e só lembro que tinha ou o queria escrever quando estou fazendo algo que me impossibilita. E aí, inexplicavelmente, começo a ter conclusões do texto escrito - mentalmente. Consigo até discordar de mim mesma (Hilário!!). Reformular o pensamento e quem sabe, concluir. Minhas idéias e sentimentos nem sempre têm conclusões. Alguns já começam com um ponto de interrogação e nunca encontram um ponto, muito menos o final. Não tenho o mínimo interesse em ser-metornar-parecer uma pessoa retilínea que possui começo-meio-e-fim. Não rolaaaaa, mesmooo. Sendo assim, não poderia exigir o mesmo de minhas verborragias-incontroláveis-independentes.
Mas o que interessa, ou melhor, o que me interessa é que consigo sentir e - de alguma forma - tornal real através do meu jeito: escrevendo. E sejá lá qual for a forma da minha escrita (mental, no papel, bloguística, própria ou desajeitada) ela precisa existir pra mim. Leia de novo: pra mim.
Escrevendo consigo entender muitas coisas que apenas sentindo não teriam o mesmo significado - pelo menos não pra esta-ser-aqui que vive boa parte do dia (e da noite também) escrevendo.
Ah, e claro: sem a menor obrigação.
- Postado por: Diii às 19h44 [ ] [ envie esta mensagem ] SER GRATA (Era o que eu queria - quero - dizer!)
" Acho feio quem esquece daquele que foi amigo, que deu demonstrações de nunca-vou-te-deixar-sozinho-nem-na-fossa-e-nem-no-brinde. Injusto, ingrato, nada bonito. Perdi alguns pelo caminho, alguns que achei que fossem amigos e mesmo pelos perdidos tenho gratidão. Todo mundo já teve um momento fulaninha-é-muito-minha-amiga e depois rolou o fulaninha-era-eu-achava-eu-pensava-que-era-muito-minha-amiga. Acontece, tenha você quinze, vinte e cinco ou quarenta anos. A gente quebra a cara, se estrepa, derrapa e descobre que não era bem assim, nem tudo era tão azul e tão afetuoso. Mas, mesmo nesses momentos, quando você precisava, a fulaninha foi legal com você. Hoje não se falam, mal sabem uma da outra, mas você lembra daquela vez que estava aflita ou muito feliz e dividiu os sentimentos com aquela que um dia foi e hoje não é, nada mais é, nada mais significa. O gosto? Gratidão, obrigada dona Fulaninha de Tal. Pronto. Seja legal, não esqueça o que fizeram por você."
Por Clarissa Corrêa.
- Postado por: Diii às 09h31 [ ] [ envie esta mensagem ] Sublinhados - Selma e Sinatra (Martha Medeiros)
" .. a gente nunca agrada todo mundo. Aliás, quase sempre não agradamos ninguém. " (p. 30)
" .. é uma pena que esta garota ainda não tenha entendido que cada pessoa é voltada para seu lado obscuro, para seu perfil mais secreto, para um mundo sem letras, incodificável. Quem procura palavras para se decifrar está buscando autenticar uma farsa. É sempre um parto difícil, induzido, e não se sabe o que vamos ter que adotar como nosso até o fim da vida. Quanta responsabilidade, identificar-se! "Esta sou eu, muito prazer. sinto isso, gosto daquilo, sou contra, sou a favor .." É uma idiotice delimitar-se através de preferências e opiniões. E depois morrer justificando estas escolhas que foram apenas casuais, oportunas, apetecíveis num determinado momento, mas nunca para sempre. Que sorte têm os tolos, os desprovidos de inteligência, que não fazem a menor questão de saber quem são e muito menos de propagar sua descoberta. " (p. 78-79)
" - Não é mentira. As versões que apresentamos de nós mesmos são verdades escolhidas, pinçadas de dentro de um emanharado de opções. Nimguém pode ousar adivinhar o que se passa na cabeça dos outros ou exigir coerência de quem quer que seja. Em algum momento eu lhe disse que esta rendição ao convencional me fez uma mulher infeliz? Pois não fez. Infeliz eu teria sido se ficasse de braços cruzados esperando a vida fazer de mim o que bem entendesse. " (p.94)
" - Todo mundo sofre, todo mundo tem dúvida sobre suas escolhas, todo mundo se arrepende, se perde, volta atrás, recomeça. Esta é a história de todos. " (p. 94)
" - Eu pagaria uma pequena fortuna para saber os pensamentos que você andou tendo sobre mim nos últimos meses. Aí veremos quem é cruel." (p. 107)
" .. Tão preocupada em ser feliz, esqueceu de ser alegre." (p. 110)
" .. Quem a amava, afinal? Aí é que está. Não precisava mais se fazer esta pergunta. Estava se lixando para este tipo de amor que costumava vir embrulhado em papel de bombom. Foda-se a cartilha da felicidade." (p. 111)
" .. As fotos nunca contam nada. (...) Rápidos flashes de emoções sem explicação racional, instantes de plenitude vindos do nada, conexões estabelecidas consigo mesma, (...). Ser anônima compensa. E ainda tenho a sorte de saber sorrir sem a ajuda dos lábios, sem mostrar os dentes, sorrir internamente sem que ninguém venha me perguntar: qual é a graça? A graça é fazer parte deste circo, às vezes, e não fazer parte, em outras, e sempre se sentir confortável. " (p. 113)
" - Pois eu acho que vida nenhuma é suficientemente rica para merecer o verdadeiro interesse dos outros. somos todos voyeurs e curiosos sobre a intimidade alheia, achando que a vida de um artista ou mesmo a vida do vizinho irá nos ajudar a compreender melhor nosso próprio universo, e acabamos frustados com as descobertas que não fazemos. " (p. 121)
" - Vou sentir falta de você, Selma. - Também vou sentir falta de mim, Guta. Não tinha o costume de ser puxada pra fora. Você tentou me exorcizar, e creia-me: não foi tão malsucedida quanto imagina. Mas isso agora não importa mais." (p.128)
" - Agora é comigo mesma. Preciso continuar com meus exercícios de desapego, senão não vou suportar." (p. 128)
- Postado por: Diii às 08h59 [ ] [ envie esta mensagem ]
*Cheiro de Chuva - Todos os Direitos Reservados*
|
