Meu Lado B
Vou contar aqui um segredo: não sei terminar sentimentos. Sensações. É. Não-sei-como-faz-se-vc-aí-sabe-por-favor-me-ajuda? Não sei terminar relacionamentos. Vínculos. Encontros. Desencontros. Não sei jogar tudo dentro da mala e Despedidas? Nossasiiiiiiiiiiinhoraducéuuuuuuuuuuuuuu. No momento-despedida-ó-e-agora eu sempre penso que um buraco deveria se abrir abaixo dos meus pés. Mas como isso ainda nuncaaaaaaa aconteceu, continuo enfrentando tudo com um estranhamento sem tamanho. E que sempre me incomoda como se fosse a primeira vez. Pode? Pode, sim. Não me acostumo. Não sei o que fazer com as mãos. Minha boca treme e acho que ao invés de falar começo a soletrar letras que não fazem parte do meu conhecido vocabulário. Então uma voz aqui dentro implora pra ir. Simplesmente, ir. Sair dali o mais rápido possível. Go! Por-favor-pessoa-que-está-me-olhando-e-aguardando-meu-tchau-por-favor-entenda-que-eu-não-sei-me-despedir! Meu coração dispara e mesmo sem ter a certeza de que me lembrei da formalidade de despedir-me, eu vou. Olho para meus pés e o movimento rápido e contínuo me acalma. E, então, dado o primeiro passo rumo ao desencontro com A Despedida, sinto um alívio incondicional. Meu ar começa a se tornar puro, novamente, e volto pro que eu chamo de mundo-ao-meu-redor. Ei, calma que eu não sou esse bicho-do-mato que você aí poderia estar afirmando, agora. Minha consciência e educação sempre foram mais fortes e nunca me permitiram agir - nesse aspecto - de acordo com o que sinto, penso e querooOO. Tá. Preciso contar aqui que por um período maravilhosooooo adquiri - ahhhhhh-obrigadaaaa-Vila! - com uns amigos paulistas, o fantástico hábito de sair à francesa dos encontros, festas e afins! Melhor de tudo? Todos achavam super normal. Parecia lei. Aliás, era lei. No máximo uma risadinha irônica perdida e a fúria pela pessoa ter "conseguido" sair sem ninguém perceber. Toda essa prosa aí acima pra dizer que a morte de duas pessoas nesses dois últimos dias me afetou de uma forma inesperada. Quem eram as duas pessoas? Uma: tia próxima do meu pai (tia do pai é o que da gente?). Duas: vó do meu namorado. Por estar longe da primeira, lamentei a 800 Km de distância o fato irreversível. Fiquei triste, sim. Lembrei de vários momentos em que a-tia-do-meu-pai fora presente no meu passado. E mesmo lamentando o fim por ela, segui meu dia. Até Às 23h, quis dizer. Porque nessa hora meu namorado me ligou comunicando o falecimento de sua vó, que no dia anterior estava absolutamente normal. Dois dias. Duas mortes. Duas absolutas certezas: - Primeira: Não sei me despedir, DE NADA E DE NINGUÉM. - Segunda: despedidas eternas me deixam sem-rumo-sem-lenço-e-sem-documento, sim. Quando vi meu namorado ali parado em frente ao caixão não tinha como não ficar emocionada. Ele nunca mais veria a vó e vice-versa (tem hífen?). Sim, eu a conheci - postumamente - e mesmo assim, gostei dela. Não sei explicar. Gostei da senhorinha, infelizmente, na ocasião coberta de flores. E ao ver através da grinalda, que cobria seu rosto, aquela expressão macia de "dever e vida cumpridos" tive minha re-re-re-re-confirmação de não-saber-terminar-sentimentos-sensações-(d)encontros. Eu não conhecia a Dona Alice mas não queria que ela partisse. Não queria me despedir. Nem vê-la partir. As horas longas-intermináveis-necessárias do velório me fizeram refletir em várias coisas. E, pessoas. E.. na minha vózinha única e indescritível e querida e linda e tudibaum. Se meu namorado chorou o que chorou.. eu vou ter que nascer de novo quando tiver que abrir um buraco (aquele bem na minha frente, lembra?) pra não ver minha vó partir. Porque eu não saberei me despedir dela. Nem de ninguém.
P.S: Se vc ainda está lendo este texto, merece saber que eu fui e voltei várias vezes para este mesmo texto. Só para evitar, o quanto pudesse, esse...
FIM. - Postado por: Diii às 21h35 [ ] [ envie esta mensagem ]
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